


Eu já não sou do tempo da abstenção de consciência.
Eu já não sou do tempo do arroz a 5 tostões.
Eu já não sou do tempo das filas de espera intermináveis.
Eu já não sou do tempo das pessoas razoáveis.
Eu já não sou do tempo da web unidireccional.
Eu já não sou do tempo de Salazar.
Eu já não sou do tempo do cinema mudo.
Eu já não sou do tempo dos sinais de fumo.
Eu já não sou do tempo dos serões de rádio em família.
Eu já não sou do tempo da acid wave de São Francisco.
Eu já não sou do tempo das cruzadas.
Eu já não sou do tempo das batalhas campais.
Eu já não sou do tempo dos cowboys.
Eu já não sou do tempo do tabaco de mascar.
Eu já não sou do tempo das ceroulas.
Eu já não sou do tempo do machismo.
Eu já não sou do tempo da guilhotina.
Eu já não sou do tempo do cachimbo.
Eu já não sou do tempo do Camilo.
Eu já não sou do tempo do fiar da lã.
Eu já não sou do tempo em que nevava na Covilhã.
Eu já não sou do tempo da Amália.
Eu já não sou do tempo do Lawrence da Arábia.
Eu já não sou do tempo do pão cozido a lenha.
Eu já não sou do tempo da ordenha.
Eu já não sou do tempo em que se jogava às cartas no jardim.
Eu já não sou do tempo do pássaro extinto, o kiwi.
Eu já não sou do tempo do dominó.
Eu já não sou do tempo do Aniki Bobo.
Eu já não sou do tempo de antigamente.
Eu já não vou a tempo do tempo do presente.
Tenho estas insónias. Terríveis, infinitas.
Um estado de torpor entre a realidade e o que há para além dela.
Quero uma pílula milagrosa, a droga que me permita sair desta intemporalidade de horas perdidas.
De Nova Iorque a Tóquio, vou, da Babilónia a Marte.
Insignificantes poeiras cósmicas sou, Leviatã marinho enorme.
Dos princípios dos sonhos ao infinito.
Dalí e Klimt, dali e daqui.
Livre como uma borboleta, fantoche e marreta. A metamorfose.
Engano as horas a mim próprio, semi-traído unicórnio.
Que torpor e desagradável sensação, o cobertor e o colchão.
As sociedades ditas modernas alargam hoje o nosso leque de produtos disponíveis e apelam incessantemente à sua compra, por mais dispensável e de carácter inútil que o objecto seja para as nossas vidas. A publicidade parece ter a função de nos informar do contrário, e a coisa até tem corrido bem para os anunciantes, a verdade é que a publicidade aumenta as vendas e o consumismo parece ter vindo para ficar. As tendências formadas pela publicidade bombardeiam-nos e estar fora da corrente social é uma das causas geradoras do descontentamento individual e dos estereótipos sociais, no geral. Outros existem.
A questão que eu gostaria de aqui comentar, dando um ponto de vista pessoal, é a da necessidade. A palavra necessidade vem definida nos dicionários por: algo de que se precisa mesmo; indispensável; imprescindível. Como se de um elemento essencial à vida se tratasse.
A liberalização dos mercados leva-nos a ter mais objectos disponíveis nas nossas vidas, e assim, a facilitá-las, o que não levanta o problema em questão, ou seja, porque não ter acesso a mais condições de vida desde que haja dinheiro para comprar determinados produtos?
Cria-se assim um novo conceito de necessidade em que esta deixa de estar relacionada com a condição da necessidade de viver mas, a de facilitar a vida. Este novo conceito tem até como adjacentes a origem de novos problemas de saúde como os diabetes e a obesidade, derivados tanto do modo de vida desenfreado, em que existe a necessidade de uma alimentação menos cuidada e por isso se recorre ao fast-food, como do modo de vida facilitado. Estes problemas de saúde podem ainda ser derivados da necessidade de pertença, são os casos da bulimia e da anorexia. Outros existem.
O outro problema que se levanta reside na expansão desse mesmo conceito. Os costumes criados pelo nosso modo de vida e a implementação deste novo conceito de necessidade, aos quais aprendemos a chamar de direitos, influem, por vezes, com os conceitos de outras culturas. A ideia de criar um mundo à imagem do nosso, ocidentalizando-o, deixa pouco espaço para a subsistência de outros modos de vida mais tradicionais. È certo que existem necessidades básicas, lá está, a de vida, que por vezes é menosprezada em certas culturas, mas mesmo assim acredito que deva haver um meio-termo de coexistência e que as nossas necessidades adquiridas não sejam necessariamente as mundiais, não se nem todos os povos estejam de acordo.